“Smartphones e os meios de comunicação”, padre Álvaro Calderón

A comunicação é assunto da maior importância para o ser humano, pois este é social por natureza. Sem comunicação não há família, nem sociedade, nem educação, e o homem não desenvolve sua personalidade

E a comunicação é ainda mais importante para o cristão, porquanto Jesus Cristo quer que entre Ele e seus fiéis haja uma união grande ao ponto de ser semelhante à que há no seio da própria Santíssima Trindade: “E eu não rogo somente por eles (os Apóstolos), mas rogo também por aqueles que hão de crer em mim por meio da sua palavra, para que sejam todos um, como tu, Pai, és em mim, e eu em ti, para que também eles sejam um em nós, e creia o mundo que tu me enviaste” (São João, 17). Daí se segue que aquilo que nos comunica e une com Deus seja também aquilo que nos comunica e une com os demais homens: a caridade, o amor divino, que tem ao mesmo tempo por objeto a Deus e ao próximo. Sem comunicação não há Igreja nem salvação.

Por isso tem também fundamental importância o meio de comunicação. Sim, usamos propositadamente essa expressão, já que tanto se fala hoje em “meios de comunicação”. Qual é o principal meio de comunicação cristão? O principal meio de comunicação cristão é a Eucaristia. Sempre os homens se uniram a Deus pelos sacrifícios e se comunicaram entre si compartilhando uma refeição, e a Eucaristia é ambas as coisas: Sacrifício divino e divina Refeição pela qual o cristão se une a Deus e aos seus irmãos, tornando-se assim membro do Corpo místico, cuja cabeça é Jesus Cristo.

A Eucaristia é o Sacramento da unidade eclesiástica, o Meio que engendra, engrandece e fortalece a sociedade divina que é a Igreja. Sinal puro e sensível, apto a ser compreendido pelas mais simples inteligências sem que deixe de ser eficacíssimo, pois nas sagradas espécies do pão e do vinho está presente o verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo. E a fim de explicar esse Sinal do amor divino, pelo qual Jesus Cristo se entrega ao Pai como Vítima e se entrega a nós como Refeição, a Igreja engastou a joia da dupla consagração na Liturgia da Santa Missa, pela qual somos formados no verdadeiro catolicismo e da qual brota toda a riquíssima cultura cristã. O meio de comunicação cristão é certamente a Eucaristia.

Mas também existem os meios de comunicação humanos, que na medida em que não são usados de maneira cristã merecem ser chamados meios de comunicação mundanos, e estes se têm aperfeiçoado de maneira assombrosa nos últimos tempos. 

Esses meios se têm incorporado aos homens numa sociedade também universal –é oportuno dizer – que constitui uma verdadeira anti-igreja, cuja cabeça invisível já podemos adivinhar quem é: Satanás. E hoje o principal meio de comunicação é o smartphone (em inglês, que é a língua sagrada da antiliturgia mundana), o telefone astuto que constitui uma espécie de antieucaristia pela qual se comunga nesta nova sociedade invertida. Isso é hoje, porque muito provavelmente amanhã todos terão um chip no cérebro e o 666 na fronte. Esta é uma sociedade antitradicional em que tudo muda a uma velocidade cada vez maior.

Talvez tu sejas tão ingênuo que a exagerada oposição que pusemos entre o celular e a Eucaristia te surpreenda. Por acaso não te dás conta de como esses aparelhinhos cativam e encantam, arrancando-te da oração, da família e da boa amizade? Quantas vezes não se interrompe uma conversa por causa da matreira vozinha do celular! Ou não se vê uma pessoa olhando para o vazio enquanto fala durante uma reunião! Não é à toa que se pede que se desliguem os celulares ao entrar na igreja: eles são contrários a Nosso Senhor. E o são muito mais do que geralmente se está disposto a reconhecer.

OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO E A REVOLUÇÃO ANTICRISTÃ

É muito clara a ligação entre o progresso dos meios de comunicação e o avanço da revolução anticristã. O processo que vivemos começa em 1300 com o mal chamado Renascimento humanista, quando tantos cristãos deixaram de pôr Deus no centro de suas vidas e começaram a pôr-se a si mesmos. Mas é um fato histórico reconhecido que esse movimento de antropocentrismo foi determinantemente influenciado pela invenção do papel e da imprensa, e do consequente barateamento dos livros. Os homens cultos já não quiseram ter como mestres os sacerdotes e os teólogos, pois preferiram acessar as fontes de sabedoria por si mesmos: a Bíblia e os filósofos antigos. 

Dois séculos depois, em 1500, a propagação de traduções da Bíblia e de livros fáceis de autodeclarados teólogos provocou a mal chamada Reforma protestante (os nomes dessa história foram dados pelos revolucionários), a qual jamais poderia ter acontecido sem o progresso dos sistemas de fabricação de papel e de impressão dos escritos. Da mesma maneira, mas ainda mais intensa, foi o caso da Revolução francesa,que se deu no início do século XVIII (agora os historiadores começaram a chamar as coisas pelo seu nome, embora os bons franceses não gostem do adjetivo). Ela foi possível por causa de uma inundação de revistas e folhetins muito simples que denegriam a ordem cristã sem o cuidado argumentativo que tomavam os heresiarcas luteranos. Observe-se que, quanto maior a pujança do meio de comunicação, maior a pobreza do conteúdo comunicado.

Dois séculos depois e chegamos, no século XX, ao Concílio Vaticano II, onde a revolução modernista contagiou a própria hierarquia da Igreja. Pois bem, este foi o Concílio dos jornalistas, pois foi nele que os padres conciliares prestaram mais atenção aos jornais que ao Espírito Santo. É um fato patente que a reforma conciliar – que não é outra coisa que uma infecção de revolução anticristã na Igreja – não teria sido possível sem os modernos meios de comunicação: as impressoras rotativas, que vomitavam todos os dias milhões de jornais; o rádio, que aturde com seu incansável palavreado; e a televisão, que com sua vertigem enlouquece a imaginação. Os jornais bateram à porta, o rádio entrou em casa, e a televisão assentou-se de frente para a mesa familiar. Os católicos então não puderam mais pensar.

No entanto, os meios de comunicação que temos à disposição hoje são imensamente mais poderosos, e não estão em casa, pois já se meteram em nossos bolsos! Hoje não somente se têm as bibliotecas do mundo no celular mas todos estão chamados a ser autores; hoje não somente se ouve a incessante voz do rádio mas todos são instigados a tornar-se emissoras que falam sem parar; e não somente se abre estupidamente a boca diante do programa de televisão mas todos agora são convidados a atuar. Se deixamos a ingenuidade, o que hoje se pode esperar que ocorra quando vemos os poderosíssimos instrumentos à disposição de Satanás para possuir a mente dos homens?

AS OITO DESVENTURANÇAS DO SMARTPHONE

Nós, os sacerdotes, não deixamos de assombrar-nos com os multifacetados danos produzidos por esses aparelhos endiabrados. Assombrados e atemorizados de fato, e, se não estamos horrorizados como deveríamos, é porque pouco a pouco acabamos por acostumar-nos com a situação. Tentamos fazer uma lista de males, daqueles que às vezes são tão graves que é inconveniente descrever, mas acreditamos que precisamos ser suficientemente claros.

Desventurança da impureza.

Leva-se no bolso uma ampla biblioaudiovideoteca com uma seção quase infinita de pornografia, e para acessá-la não é preciso passar a vergonha de entrar na fila de um cinema de má fama, nem mostrar a triste cara na banca de jornal, que vive de enriquecer à custa da miséria alheia; basta apenas apertar um discreto botão. Vive-se em perpétua ocasião com um saco de gasolina suja na mão, pronta para explodir com a primeira fagulha de tentação. Quanta virtude é preciso para nunca acabar por incendiar-se?

Desventurança da indecência.

No homem se dá mais a tentação de ver; na mulher a de ser vista. Que a vejam mas não a toquem. E, em seu orgulho, a jovenzinha quer ser vista sem que se note que se mostra, como que por surpresa. Pois bem, a tela oferece a maneira mais gradual e mais medida de nutrir a vaidade e enfraquecer o pudor, porque permite manejar sua imagem e aparecer defendida por uma barreira de proteção. Ainda há aqueles que se escandalizam com a podridão dos reality shows, e não se dão conta de que, com os milhões de filmadoras que registram a todo momento, a sociedade moderna inteira se está mostrando da mesma maneira. Papais tranquilos quando o namoradinho tem uma janelinha aberta para entrar no quarto da sua filha.

Desventurança da sedução.

O sedutor tem à sua disposição o melhor meio para ter acesso à sua presa. A jovenzinha tem o cuidado de não falar com qualquer homem, mas quem resiste a ler uma mensagem?! Ninguém deixa que qualquer pessoa se aproxime de sua filha e sussurre ao ouvido dela – ou do esposo, ou da esposa –, mas o celular consegue fazer isso. Pior ainda são as conversas anônimas, porque é sedutor lidar com o perverso ou a prostituta, assim como Eva foi atraída pela ciência do bem e do mal. E os aparelhos permitem entrar nesses infernos com a aparente segurança de poder sair instantaneamente com um movimento do dedo. Mas a cada momento que ali está cativa, como o ratinho hipnotizado pela serpente, a criança caminha rumo à casa de seu estrangulador.

Desventurança da cobiça.

O desejo das coisas cresce ao infinito. O cartão de crédito já era uma ocasião de gastos imoderados que poucos podem controlar, de modo que era preciso segurar em casa os compradores compulsivos. Mas agora já não é necessário passear no shopping, pois o celular é uma vitrine de tudo o que se vende no universo, tudo pronto para ser comprado em parcelas com um clique. E há também os gastos em telecomunicação. Pobres católicos tradicionais com muitos filhos: como fazem para pagar a conta de celular de cada um? Antes as crianças mendigavam uma moeda para as guloseimas ou para as figurinhas do álbum; agora é para carregar o celular.

Desventurança da irrealidade.

O ser humano, por sua própria natureza, sempre sofreu o conflito entre aparência e realidade, porque os rostos nem sempre manifestam o que acontece na alma, e quase todos cobrem sua personalidade real com a máscara de uma personalidade artificial. Como é difícil conhecer até o próprio irmão! Mas agora, neste cenário virtual em que toda a sociedade inteira está encenando, este problema foi elevado ao nível de verdadeira loucura coletiva, de uma toxicodependência em massa, ou, pior, de certa possessão diabólica social. Se examinarmos bem, concluímos que não há exagero aqui. A sofisticada aparência virtual cria ilusões muito difíceis de dissipar. Hoje, até nossos bons fiéis creem ter amizade virtual, apostolado virtual, caridade virtual, e a distância que se toma do real pode ser imensa (advertimos, não condenamos). Um triste dado confidencial: temos certeza de que grande parte dos sacerdotes que nos últimos tempos deixaram a Fraternidade foi por se terem deixado enganar por uma ilusória fraternidade virtual. E se isso nos acontece a nós, em nossa família sacerdotal, não menos se passa convosco, queridos fiéis, em vossas próprias famílias. Ou não?

Desventurança da irreflexão.

Já observamos que, quando cresce o meio, diminui o pensamento. Aquele que lê pouco pensa muito, e aquele que lê muito pensa pouco (entenda-se que não estamos contra o hábito da boa leitura!). E, se a letra esgota o espírito, quanto mais a imagem sonora em movimento! Hoje se têm mil cinemas abertos no bolso, se mantêm mil conversas, e mil notícias ao vivo bombardeiam o cérebro. Não sobra um segundo de contemplação nem de pensamento. A ebulição da atividade imaginativa torna-se obsessiva e tende a anular toda atividade propriamente intelectual. Não se dá de outra maneira a possessão demoníaca.

Desventurança da charlatanice.

Há aqueles que querem ter uma vida intelectual e descobrem o ambiente universitário virtual. Mas à irrealidade que padece soma-se outro pecado: o desconhecimento da autoridade. Não importa quem sabe; todo o mundo tem direito de ensinar. É como uma imensa praça, a Ágora da nova Atenas, onde qualquer pessoa instaura sua cátedra. Centenas de milhares falam e milhões escutam (porquanto não há blog que não tenha visitas), mas não se ensina nem se aprende nada, pois as verdades que são ditas acabam por ser desperdiçadas num oceano de ninharias e já ninguém acredita em nada.

Desventurança da liberdade.

A internet é o ilusório triunfo da liberdade de expressão. Escutamos isso até de um sacerdote: “Os diários e a televisão estão dominados, mas pela internet podemos falar”. Que falsa ilusão! O inimigo do homem sabe perder dez para ganhar um milhão. Deixem que diga o que quiser o padreco tradicional, que a única coisa de que me vou encarregar é pôr simultaneamente outras mil pessoas falando a favor e contra a Tradição. Vão todos à Ágora de Atenas para conhecer a verdade!

Terminamos aqui, mas todos sabem perfeitamente que a lista dos males poderia alongar-se muito mais.

SE NOSSA JUSTIÇA NÃO É MELHOR…

Nossas queridas famílias vivem, neste ponto, certa hipocrisia farisaica de que não estamos totalmente isentos os sacerdotes. O apego aos celulares é tão grande, e os males que traz são tão vergonhosos, que aquilo que seguramente se reconhece nos confessionários nem é mencionado na mesa familiar e é de difícil trato no púlpito. Mas Nosso Senhor nos adverte: “Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e que a dos fariseus, não entrareis no reino dos céus” (São Mateus, 5). Não façamos igual ao avestruz, que fecha os olhos diante do mal que sofre. Se a imprensa deu lugar à reforma protestante, se o rádio e a televisão permitiram a revolução conciliar, que nova etapa nos preparam a internet e o smartphone? É preciso fazer algo.

É verdade que a atitude católica ante o mundo e suas coisas não é a de separação material, como no Antigo Testamento ou como fazem hoje os menonitas. Nosso Senhor disse: “Não peço que vos tireis do mundo, mas que vos guardeis do mal” (São João, 17, 15). Os santos imprimiram livros e folhetos, e hoje utilizarão aparelhos, porque o mal não está nos circuitos eletrônicos, mas no uso que se faz deles. Trata-se de usar das coisas deste mundo com virtude cristã, tomando o que é bom e deixando o que é mau. Não é solução universal pretender não usar nunca um computador ou um celular; este é remédio material que geralmente termina pior. Mas também é muito católica a humildade de saber-se inclinado ao mal pelo pecado original. Temos pouca virtude, e por causa disso não precisamos propor-nos a condutas que só podem sustentar-se com virtude heroica. Necessitamos apartar-nos o quanto possível das ocasiões de pecado, e isso é que é o celular.

O que fazer? Não a todos convém a mesma coisa, nem todos são capazes das mesmas coisas, razão por que pode ser até contraproducente dar receitas universais:

  • A posse de um celular traz uma falsa sensação de segurança, e acaba que te assaltam para roubar o aparelho: confia mais no anjo da guarda, que não é virtual.
  • Quando for preciso usá-lo, convém não ter celulares pessoais, mas apenas familiares, que são usados apenas quando necessário.
  • Não usá-lo em casa, mas apenas quando sair; e deixá-lo na entrada, como se deixam os guarda-chuvas.
  • Impedir a conexão wi-fi em casa.

Ah! Para que seguir esses conselhos, se nada bastará se não se odeia a fonte de tanto mal?! É preciso falar mal dele, difamá-lo merecidamente, lutar contra o feitiço sob o qual ele nos mantém. Eucaristia ou smartphone. Aquela atrai para o alto, este puxa para baixo: é verdadeira a oposição. Se não o desligarmos, perderemos a Nosso Senhor!

Publicado na revista Iesus Christus, n.º 155, no penúltimo trimestre de 2016.

[Negritos são meus]

O texto e a tradução foram revisados pelo professor Carlos Nougué. Deixo aqui meu agradecimento.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s